quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Caderno Novo


UM CADERNO NOVO
E TALVEZ EU ME RESOLVO
EM OUTRAS PALAVRAS
EM NOVOS VERSOS
BASTA VIRAR AS PÁGINAS
EM UMA ESCORRO A LÁGRIMA
EM OUTRA APLICO UM MATA BORRÃO
NA SEGUINTE COM REQUINTE
FAÇO UM DESENHO
E DIGO E DESDENHO
QUE É ABSTRATO
MAS A VERDADE É QUE EU TENTEI
DESENHAR O SEU RETRATO
MAS RESPINGARAM MUITAS TINTAS...
UM CADERNO NOVO É SEMPRE ASSIM
ATIÇA A MÃO
ENFEITIÇA OS OLHOS
E FAZ O LÁPIS DESLISAR
E ANTES MESMO DE ABRIR
BEIJAR A CAPA
O TRAÇO ATÉ ESCAPA
MAS A MUSA DA JANELA ESPIRAL
DEIXA INDELÉVEL A MARCA
DO VERMELHO BATOM

Carlos Gutierrez


AMORteceDOR

O AMOR TE DÁ
A MORTE TE TIRA
ENTÃO ESCOLHE
SE TU ENCOLHES
OU TU ESTICAS
A GENTE VIVI O QUE PLANTA
A GENTE COLHE O QUE SEMEIA
ENTÃO ESCOLHA
SER UM ERMITÃO
OU MELHORAR A SUA ALDEIA
O AMOR NÃO EVITA A MORTE
MAS ENQUANTO VIDA
AMORTECE-NOS NAS QUEDAS E
RECAÍDAS

Carlos Gutierrez

poema visual Tonho Oliveira


Expectativa

Só se descobre um sabor nos dias quando se escapa à obrigação de possuir um destino .
(Cioran)

o espectro da expectativa
outro dia é outra chance
para que se alcance
um lampejo um relance
um romance um saber
coisa assim que valha a pena
pura aventura ao que a vida nos satura
e nos faz sofrer
Eu não quero saber o que está à minha frente
dispenso roteiros e videntes
não temo as sombras de um novo caminho
convivo quase todo tempo com a minha tão insistente
rude grude que me hesita mas não evita
o ímpeto dos meus pensamentos
o espectro da expectativa
esse gosto às vezes doce às vezes ácido
essa saliva que prova os frutos e os venenos
da árvore invisível da nossa espera

Carlos Gutierrez

foto Nelson de Souza


Trem

trem
vem
sem
trilhos
passe
pelos túneis
dos meus olhos
surpreendidos
trem
vem
ao meu encalço
com todo o alarido
apite
repete
o seu grito
quebre o silencio
nos túneis
dos meus ouvidos
trem vem
na plataforma
do meu sonho

Carlos Gutierrez


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

The Tempest

The Tempest

The Tempest (The Siren's Song; The Banshee's Cry)

Bob Dylan

I say!
Why do you grip so hard, that way?
Of what, is there left to be afraid?
Let the waves elope with your empty remains.
They erode your foothold, anyway.

They Mosh
Unaware of their own might
Hypnotizing
Shore-ward swallowing
They storm me, ganging up on me!
Whats become of the home that supported me?
They spit me back after drowning me
Then slip away dragging their fingers behind them.

But you expel the salt sink down lower than the undertow would bring you.
You just dont seem to see how returning to them is so far beneath you.

But then
How come my corpse it rises up?
And it is my soul that has sunk?
Hear!
That sound rings out across the land
Over, the roaring waves through every grain of sand
Is it of loss and pain or made to seduce man?
Listen!
The oohs and aahs of
Funeral spectators
Death admirators
As they bathe in ritual memories and fake tears.
Lifes underrated.
Jaded and hatred
Isolate you so abandon your fears.

And spread my ashes like a bouquet of seeds.
Far up, far out
To show you what Im made of.
Kill the parasite in every co-dependent
Brain fallen slave to pull the waves

The pull of the waves
The natural decay
Of all that is made
Is how redemption is paid

But you expel the salt sink down lower than the undertow would bring you.
You just dont seem to see how returning to them is so far beneath you.

Say, Dickinson, who do you blame for your romantic death wish?
And does it remain true that angry winds feel like a lovers breath?
Thats why you grip so hard.
No!
Its simply condition keeping me locked in!
I could escape if I knew how to swim!
Look feel youre aided
Wind, sun and strangers
have come to guide you so the choice is clear

Well spread your ashes like a bouquet of seeds.
Far up, far out
So show us what youre made of.
Well kill the parasite in every co-dependent
Brain fallen slave to the pull of the waves.

Playfully
Badgering
Casually capturing
To escape the surface chaos is to sink not to swim.

You say
To release the stranglehold keeping me safely beneath.
But, as sea foam rises up
Tickles my lips and sinks inside
Doesnt the choice of future paths become a matter of pride?
When Ive struggled so hard to excel,
Why is it so unappealing to survive?
Tradução Livre

A Tempestade  

Eu questiono
Porque você se apega tanto desse jeito?
O que há nos arredores para que você sinta receio
Deixe as ondas fugirem com as suas redes espumantes
Elas corroem de qualquer forma a terra
deixam nódoas em azulejos
e enferrujam até pensamentos

As ondas batem
Inconscientes de sua própria força
Hipnotizam
Engolem a praia
Elas arrebentam e eu sinto os seus efeitos
quando batem sobre meu peito
ainda não rarefeito de uma dor
O que aconteceu com o mar que me ajudava?
Antes as ondas faziam surfar os meus pensamentos
Hoje elas cospem e repelem após ter-me afogado em lamentos
.E os meus dedos indefesos escorregam-se entre elas
puxando recentes e úmidas lembranças
de bonanças contra tempestades

Mas você expele o sal e afunda mais do que do que seria possível na praia.
se entrega...desmaia e desmancha um castelo de areia em segundos
um castelo que tomou tanto seu tempo e desvelo
Você parece simplesmente não ter a noção
quanda a retorna à praia de quanto ficou submerso
 numa tempestade interior

Porém
eu agora me questiono
Como pode meu corpo se levantar?
E minha alma afundar?
após essa tempestade
Escute!
Esse barulho soa por toda a terra
Além do rugido das ondas por cada grão de areia
Mar com toda a sua profundeza
que seduz tantos seres
tranformando-os em piratas ou aventureiros
que peoduz tantas viagens e perdas
que escondem douradas e cruéis surpresas
tesouros e também dentes e presas de tubarões
Escute!
Os gritos de espanto
a tempestade de lágrimas
dos espectadores do funeral
Admiradores da morte
que enquanto se banham em memórias e falsas lágrimas
Vidas subestimadas
Embotadas e odiadas
Isoladas,
 se livram  dos seus medos das suas vidas inglórias na morte
na ultima tempestade

Agora espalham minhas cinzas como um buquê de sementes.
Pra cima, pra longe
Para lhe mostrar do que eu sou feito.
Até o parasita que habita o meu ser
e também os neurônios escravos do meu cérebro
Cérebro  por onde fogem ideias e conceitos
pelo balanço das ondas.

O puxar das ondas
A decadência natural
De tudo que é feito
A redenção que é ainda é possível resgatar
mesmo após toda a tempestade

Você parece simplesmente não ter a noção
quanda  retorna à praia de quanto ficou submerso
 numa tempestade interior
e expele todo o sal que lhe possa corroer


Esclareça, Dickinson, qual é a culpa do seu romântico desejo de morrer?
E continuar a crer  que os furiosos ventos são  hálitos dos amantes?
É por isso que você se apega tanto.
Não!
Essa simples condição essa minha natureza apaixonada
esse meu aprisionar no desejo de amar
atraí mais tempestades
Eu poderia escapar se eu soubesse como nadar!
Veja e sinta, você é ajudado
Vento, sol e estranhos
olhos esbugalhados de faróis
Vieram para guiar você
então a decisão é clara
você Dickinson é a sua própria tempestade

Bem espalhe suas cinzas como um buquê de sementes.
Para cima, para longe
Então nos mostre do que você é feito
carne ossos músculos nervos
Nós matamos o parasita e todos os  seus dependentes
Montamos o mosaico do seu cérebro feito escravo
 pelo balanço das ondas.
por tanto tempo
e lhe trazemos novas gaivotas
para outras rotas

Brincando
Incomodando
Capturando casualmente
podemos escapar ilesos
da superfície caótica
mesmo nos afundando
no buraco negro do Universo
um verso apenas poderá nós servir de lanterna
dentro da caverna de nós mesmos

Você diz
Para me soltar da prisão que me mantém seguro em baixo.
Mas como o mar se levanta
Faz cócegas em meus lábios e entra por eles
A escolha de caminhos futuros não se torna uma questão de orgulho
se torna uma âncora para sobreviver e sonhar 
Porque apenas sobreviver não torna a vida atrativa
apenas tempestade
ações intempestivas

Carlos R. Gutierrez

Quando O Amor Acontece - João Bosco

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Olhares Perdidos

olhares perdidos
em mil aplicativos
quando irão encontrar
o sonhado lugar
a paisagem real
que não pode caber
dentro da tela
de um compacto celular
olhares perdidos
gestos medidos
vida medíocre e metódica
falsa retórica
que nos faz mergulhar
na completa solidão
no paradoxo da multidão
olhares em conservas
olhares com reservas
olhares assustados
olhar ao lado
pode ser já um pecado
imagine de frente
rente escancarado
olhares além e alhures
poéticos e patéticos
discretos ou tão atrevidos
giram evolam e rolam
descolam-se das faces
alguns aderem nas interfaces
e outros ainda cegos
descomprometidos
procuram outros glóbulos

Carlos Gutierrez





http://lounge.obviousmag.org/coffee_is_my_boyfriend/2014/10/amor-nos-tempos-do-tinder.html

João Donato - LP A Bossa Muito Moderna De Donato E Seu Trio - Album Comp...

Jack Amigo

um Jack amigo
líquido abrigo
um solo antigo
alguns acordes
e tudo que faça ainda lembrar
e estar presente
em recordes e recordes
duas palavras iguais
com significados diferentes
um Jack amigo
dentro de um ambiente
predominantemente negro
com alguns tons vermelhos
pistas de sangue de cravos
ou de pulsos testados
em contraste com o ouro delicado
resguardado no negro recipiente
ainda inocente e sem contatos
um Jack amigo
guardado para horas ainda mais difíceis
para versos que eu ainda não pude perceber

Carlos Gutierrez


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

NADA INOCENTE

meu amor
não é nada inocente
mas nem por isso
se torna indecente
meu amor
é a flor que mora
no jardim do outro lado
mas que traz
em pétalas palavras
todo o seu perfume que me salva
e extirpa todos os espinhos
entre nós
o muro de uma tela plana
onde inventamos múltiplas janelas
meu amor
se engana quem pensa que ele adoece
ela se recupera
em doses homeopáticas de versos
em fórmulas secretas
ou em receitas com letras médicas poéticas
meu amor
não tem cura
porque sempre procura
estar na U.T.I do seu coração
meu amor
não é só amor
caixa de isopor
esterilizante
meu amor
contém altas taxas de paixões
sem contra indicações
meu amor
não é enfermo nem efêmero
vive a dor sem dor
de ser extremo

Salve