segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Roteiro poético


Evelyn ( "Penny")
Acorda de manhã
Procura o que vestir
Já sabe aonde ir
(aonde eu nunca quis te levar)

O inverno está aí
Ele vem te buscar
Ele te faz sorrir
Mas veste algo quente que o frio vai chegar

Desligue o rádio e a TV
Porque em teu Domingo eu vou aparecer
Vai ser melhor  assim
o seu poder sobre mim

Ostenta ser feliz
Tudo que eu sempre quis
Mas melhor se cuidar
Com toda a tristeza que eu posso te levar

E é só pra te devolver
Lembres que é caro me esquecer
Barato pra ti
Não tente me esquecer, porque eu não vou deixar

Volte pra casa, vai chover
Porque eu fiz teu Domingo desaparecer
E, nem querendo,  vais viver longe de mim

Se eu te disser que eu não vou mais voltar
(Você irá me procurar?)
Se eu te disser que eu não vou acordar
(Com quem tu irás sonhar?)
Se eu te disser que eu não vou mais mentir
Não vá acreditar...
Decore o roteiro poético
mas se não conseguir
improvise um beijo apaixonado!

Evelyn ("Penny")

Contemplo o Tempo





Fátima Queiroz


Contemplo o tempo!
tenho todo o tempo
para isto e nisto
insisto sinistro
em deixar passar as horas
Olhar o amplo relógio
feito de luzes e sombras
o relógio que devora todas as cores
o relógio onde fogem amores impossíveis
o relógio que explora a paciência
que desperta com carícias ou gestos rudes
que fica obediente no criado mudo
ou se revolta estridente
e é arremessado sem piedade em uma parede
Contemplo o tempo
Esqueço a minha idade
indiferente à minha pressa
e aos meus lamentos...
O tempo...o tempo...
o vento suícida do momento!
tic tac tic tac tic tac tic tac
até o fatal ataque dos nervos
tic tac tic tac tic tac toc tac
ataque cardíaco
atac tic tac tic tac tic tac tic


Carlos Gutierrez

sábado, 7 de novembro de 2009

Enxertos



Marc Chagall


As suas impressões digitais
estão espalhadas em todos os cômodos
em toda mobília
em todas as janelas que flertam
a sua imagem
As suas impressões virtuais
estão impregnadas sobre toda a tela
com as suas múltiplas janelas azuis
As suas impressões estão disseminadas
dentro de mim
em visões sem fim
que percorrem a minha alma
estão enxertadas enfim
cada gota de tinta que respinga
da minha caneta forma a sua imagem
cada gota de sangue
no desleixo de atos simples
como descascar uma fruta
ou fazer a barba
forma a sua imagem
Não é loucura
Não é bobagem
É procura
É viagem
E encontro!
É um enxerto de encantos!



Carlos Gutierrez
´

Uma Lembrança e Um Amor


É cedo!
Meus olhos vêem o céu-café da manhã
Cadeira, óculos e livros,
o sol derrete logo.
A boca comporta um vermelho algo:
carimbo em rosto de concreto.
Sentei-me na sarjeta.
Fiz uma frase rústica
Tapei os olhos, pra ver-te.
Duas frases rústicas
"A solidão é meu cigarro, amor isqueiro.
Você longe, saudade já me venceu. "
Vou gentilmente lhe remeter saudades minhas
Receba-as como beija-flor na janela.
É breve. Recordações!
A bruma de lembranças
pesa mais que a cruz em meu ombro
Pigmenta o coração com cores que não sonhei.
Pensei em fugir para nosso jardim
A reabilitação me tomou a poesia,
nunca mais fui até lá
Sinto falta das flores.
Do tango na madrugada.
Revoada de sonhos.
Quem me vê aqui, ainda sentada,
jura que não sei amar...nem hipnotizar
O caderno de capa verde sabe que sei:
"Que sinceridade ter coragem de escrever um nome, assim!".
Tenho tanto pra lhe dizer!
Palavras que venham me fazer sorrir depois.
Receba essa rosa-saudade,
sem espinhos, com perfumes, carinhos, açúcares e sabores
Em preto e branco, como Brigitte Bardot que acena num filme antigo.
Três frases rústicas
"A solidão é meu cigarro, amor isqueiro.
Você longe, saudade já me venceu.
De maracujá, beijos "


Desirée Gomes

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

HILDA HILST


Paulistana de Jaú, nascida no dia 21 de abril de 1930 e falecida a 4 de fevereiro de 2004, Hilda Hilst é reconhecida, quase pela unanimidade da crítica brasileira, como uma das nossas principais autoras, sendo consideradas uma das mais importantes vozes da Língua Portuguesa do século XX. Segundo o crítico Anatol Rosenfeld, “Hilda pertence ao raro grupo de artistas que conseguiu qualidade excepcional em todos os gêneros literários que se propôs - poesia, teatro e ficção”.

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.


I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer


IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.



DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.



IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras... apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.


V

Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crespusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiqüíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.


VI

O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor dobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.

O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

Hilda Hilst

Estrelas Estranguladas


Andréia Gibo


O que você prefere:
o pó das estrelas ou a hóstia da lua;
os versos dispersos no longíquo universo
ou a lua que compactua a sua janela
e os seus mais arraigados segredos?
O que você prefere as estrelas brilhantes,
mas tão distantes e impossíveis
aos seus olhos limitados,
ou a lua opaca, mas que destaca o seu semblante
e a faz perceber que, como as estrelas,
você também é brilhante!
Então que a lua não recue do seu destino,
lhe pegue naturalmente;
descansando,
meditando com os longos cabelos em desalinho
para desafiar estrelas, planetas e galáxias
e possa, com o seu encanto,
estrangular todas as estrelas!!!


Carlos Gutierrez

sábado, 31 de outubro de 2009

Olhos de Biombo

Acordei
de um sonho extraordinário
você estava
ao meu lado
em trajes sumários
provocando o meu imaginário!
Meu sangue alternado
quente e gelado
procurava
circular
despreocupado
nas ruas azuis do meu corpo
mas não conseguia
porque a sua presença
a sua alquimia
injetava os perfumes mais intensos
e os venenos mais letais...
lhe vi em trajes sumários
com mil olhos de biombo!


Carlos Gutierrez