Luzes da Cidade

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Rosto de Alguém


E peço que venhas

do jeito que se encontras:

arrumadinha

ou bagunçada;

do mesmo pó

da velha estrada;

de um recente sonho,

seduzindo a madrugada.

Livre ou armada

sempre será amada,

enquanto consentes

minhas palavras

- sementes de mudas letras

que desejam tocar o teu coração -

E peço que venhas

por um instante apenas

Rosto de Alguém

- face serena -

que agita todo o meu ser!

Rosto de Alguém

tão recente e tão familiar!

Venha e mire-se no espelho do além

e certifica-se da sua eternidade

arco-íris

em minha eclipse brevidade...

sábado, 27 de setembro de 2008

Gratidão

Alegria
Cirque du Soleil

Você merece os melhores versos em seus ouvidos

docemente sussurrados e sempre comovidos.

Você merece os melhores vinhos e licores

em sua boca, em seu paladar de flores recém colhidas.

Você merece os carinhos mais suaves em sua face

que desvendam os seus disfarces encantadores.

Você merece os mais hesitantes e verdadeiros afagos

em seus cabelos de seda que excedam o seu próprio brilho.

Você merece os melhores passeios, os melhores ambientes

para mergulhar em um livro ou se infiltrar dentro de um filme.

Você merece toda a adrenalina de uma aventura,

a plena captura dos seus desejos mais intímos.

Você merece o olhar mais demorado que possa existir:

de um cão abandonado ou de esquecido faquir,

pisado por passos apressados.

Você merece a prece de um ateu

que um dia te conheceu e, em vão, não soube explicar

o seu encanto e como ele...maravilhosamente...cedeu

sem esboçar nenhuma defesa ou reação.

Você, enfim, merece ser o porta- retrato

de um cego, mas sem complexo, coração!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Girando ao Sol

" Girando ao Sol "
de Fernanda Rodante
Eu sinto o frio...

e procuro o Sol...

Estou azul sómbrio

com desejos amarelos ardentes...

sonhos dourados

em meus verdes já musgos anos

- limbos nos muros

que cercaram o meu tempo -



Eu quero que o Sol

aqueça a minha própria sombra negra.

Estou pálido bege

e quero o vermelho escarlate

no rubor da minha face.



Eu sinto o frio...

o cinza do passado

como espêssa neblina,

embaçando os meus caminhos opacos.



Eu quero que o laranja

na franja deste dia

prevaleça e faça girar

o Sol de ponta cabeça,

antes que dê um branco no dia

e o faça esquecer de ser dia...

e vire noite outra vez...

e apenas as lâmpadas dispostas

no alto dos postes da cidade

se convertam em pequenos fachos

de lembranças do Sol.



Girando ao Sol

eu ilumino os meus pensamentos:

transformo a rua em um picadeiro

e, sob a lona azul do céu,

assumo toda a magia do circo.



Sob o Sol com os seus múltiplos ponteiros,

faço o girar e confundir o tempo

no malabaismo das horas...

domingo, 21 de setembro de 2008

Roda Gigante

foto de Karen
Lembro!
quando eu era
criança,
eu não sentia
medo da Roda Gigante!





ela era apenas um brinquedo


maior que todos os outros


parecia que tocava o céu.


Eu ia no Parque Xangai


com a minha tia


e, só sentia um frio na barriga,


quando a roda gigante


parava lá em cima


e a cadeirinha onde eu estava sentado


balançava!


Quando eu era criança não tinha medo


de quase nada!


Os receios, recalques e freios


nasceram na puberdade!


e aí eu só tinha coragem


de ver a imponente roda gigante


de baixo em terra firme e covarde!


Perfil




Teu rosto é um losango


inserido de graciosos círculos


e misteriosas ogivas.


Teus olhos são bandeiras


banhadas de luz


- esplendor que seduz e cativa -


Teu nariz um equilibrado triângulo,


insinuante protuberância


de um carnal chafariz;


Tua boca, teus lábios sábios de silêncio,


úmidas ogivas


hálito e saliva


selam com um beijo


todo o desejo que sinto por ti,


que perfila tantos encantos e


destila tantos sentimentos.


Teus cabelos são linhas


retas, oblíquas, transversais


que escorrem sedosos e envolventes


- pontos brilhantes


da franja até as pontas -


e revelam o infinito encanto feminino.


Teu perfil


é toda a poesia que escapa


do rigor da exata geometria.

sábado, 20 de setembro de 2008

OVO


Descasco a lua

como descasco um ovo,

ela é antiga em meu céu,

mas sempre nova em meus sonhos;

crescente em minha imaginação e desejo:

mingüante em minha solidão,

quando nem...te vejo!

Restam as alvas cascas

entre os meus dedos indefesos.

Corto o ovo pelo meio

e vejo entre as deslizantes claras,

cercadas pelas perdidas lascas,

a gema de um compacto sol

que posso contemplar em plena madrugada.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Olhar Torto


Não tenha medo...
é que hoje eu acordei cedo...
já tão inspirado...
qual um arvoredo acariciado pelo vento...
um alvoroço de planos e sonhos.
Não me olhe torto...
de lado...
eu só quiz contemplar
a tua beleza...
a película rosada da tua face...
Afinal olhar não tira pedaço
nem casca ou bagaço,
quanto mais os gomos doces
do teu proibido fruto;
eu só quiz uma simples fatia
da simpatia que irradia
o teu lindo sorriso,
qual uma cereja que pousa vermelha
num bolo de aniversário.
Então não me olhe assim
atravessado!
Hoje andando pelas ruas...
cantando na chuva...
tão desligado...
passou, à minha frente,uma fumaça...
uma nuvem que se despreendeu do céu...
e perdida...
atravessou o véu da minha imaginação;
procurei em meus bolsos desencontrados,
enviezados como vesgos olhos
uma caneta e um papel
para prender o instantâneo poema,
antes que ele se perdesse
na convergência da multidão apressada...
Não tenha medo...
eu não faço nada
que possa prejudicar alguém
porque eu estou acostumado
a viver tão só, sem ninguém!
Não tenha receio!
Tu podes me excluir
a qualquer momento
com um simples toque do seu dedo,
do teu mundo virtual e encantado.
Não me olhe torto...
por um inocente pecado,
não sou de ferro...
tão pouco envolto de aço blindado
prá me proteger do teu charme.
Não me olhe torto...
esvoaçando o teu cabelo chanel
se não eu perco o rumo
do porto prá atracar
os meus pensamentos grenás a granel.
Não me olhe torto
se não o momento presente
pode dobrar a esquina do eterno
e congelar o tempo,
E aí que o poema, vesgo de tanta paixão,
jamais terminará...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tabernas Já Não Existem Mais...

Tabernas já não existem mais...

essas cavernas acolhedoras e sensuais

regadas de muito vinhos e desejos,

alardeados aos quatro cantos

ou confidenciais ao pé de ouvido

de quem já duvido que possa entender

a avalanche de palavras

que formam frases

já transtornadas pela inevitável embriaguês.

Confesso eu sou antigo freguês

que jamais conseguirá pagar pelo o que seu olhar me fez:

ele trouxe tantos sonhos

tanta paz em minha taça de cristal,

onde destilo a minha rara lucidez...

Tabernas já não existem mais...

porisso hoje durmo ao relento,

sentindo o frio em toda a sua rispidez

sem ter algo para me cobrir e me aquecer;

eu lembro de você,

quando, nas ruas, deixo verter

a lembrança da tua ardente nudez...
Tabernas já não existem mais..
.o clima medieval se evaporou no tempo...
a rolha da garrafa do gênio se desgarrou
e deixou escapar todo o encanto...
eu me lembro como se fôsse ontem,
quando entrei pela ultima vez
por uma delas com suas portas róseas...
Muita música...um frenético piano...
poetas declamando os seus versos dispersos,
vagabundos compartilhando seus ócios,
mulheres da vida...mulheres comportadas...
que desejaram fugir da afixiante rotina...
Jarras e jarras de vinho sobre as mesas
para celebrar o ritmo inebriante da vida...
circundadas de cadeiras que se esgueiram
para segurar a euforia ou a extrema melancolia
das pessoas, das vestes, disfarçes e trapos humanos
que nelas se sentam.
Tabernas já não existem mais...
e quanta falta ela nos faz!
Lá eu sempre encontrava os meus queridos amigos
e as minhas musas inspiradoras!
Encontrava Franz Kafka menos tímido e complexo
Dostoiévski com todas as suas cartas escondidas em suas mangas
e via em sua fronte a febre do jogo material e
sentimental,

escorrendo como uma inenterrupta fonte...
Via Toulosse Lautrec se embriangando em cores
para pintar os mistérios da Noite...
Eu via e ouvia Chet Baker, empunhando o seu trompete,
para interpretar a sua alma
-o lado romântico e o lado cafajeste-
o medo da vida e a coragem do suícidio...
Via também Bob Dylan sentar sobre a cadeira
e tirar delicadamente as botas empoeiradas
por um longo caminho e produtivo dia
que lhe renderam maravilhosos versos,
destilados em sua garganta e em sua gaita
que jamais se cansa de explorar os sons do Universo...
Tabernas já não existem mais...
e agora onde vou me recolher, me reconfortar...
Não vou poder mais ouvir Ana Cristina Cesar
declamar os seus versos suícidas...
Não vou mais poder ver a jovem Keidy
de cabelos e versos rebeldes,
de olhos virtuais,mas com um brilho tão nítido...
como eu vou fazer se tabernas já não existem mais...
se a Lei Seca foi reimplantada...
se da minha gang sobrou apenas a fama,
por onde passaram ,com seus surrados jeans e deslizantes tênis:
James Dean, Paulo Leminsky ,Ferreira Gullar
com os seus poemas sujos, mas sempre transparentes...
e tantos outros camaradas...
Tabernas já não existem mais...
só resta o gosto seco na boca...
a lâmina do punhal na garganta...
para nos devorar!

domingo, 14 de setembro de 2008

Reações

Ilustração de Carlos Ferreyra


Um retorno ao poema

" Quando Não"

de Keidy Lee Jones

E eu reagiria da forma mais infantil possível

para não aceitar a sua despedida

me trancaria no quarto,

acenderia uma vela que eu esqueceria sobre a cômoda

e, esta, sem eu perceber, já pelo avanço das horas

e o entorpecer dos sentidos,

forjasse um implacável incêndio

que consumisse todos os meus livros,

todos os meus retratos, flâmulas e figurinhas

até atingir o meu corpo

e esquentar a minha pele fria

do mortal desejo de contato com a sua

que além de pele é pluma e,

além de pluma é seda

sedativo dos meus impulsos.



E eu reagiria da forma mais desesperada possível,






































lançando com toda a força contra a parede






a taça de um vinho impossível






porque a taberna já cerrou as suas portas róseas






e, as suas mesas e cadeiras maciças,






encharcadas de lágrimas e renitentes gotículas de bebidas






agora estão encostadas sobre as paredes ásperas e frias,






dormindo os seus merecidos sonos,








sonhando os seus embriagados sonhos.









sábado, 13 de setembro de 2008

Um poema para Dylan

Bob Dylan


Uma canção puxa Dylan


como uma xícara de café puxa um cigarro...


na baforada de um Camel


formo a imagem nebulosa de uma mulher


e no esfarelar das cinzas que caem tão distraídas


revejo todos os caminhos percorridos


em minha vida cafeína


precocemente intelectual


em minha vida nicotina


que entorpeceu os meus sentidos


furtando um pouco do meu ar


minando o meu fôlego


mas como escapar do nevoeiro da sedução...


de uma canção longíqua Dylan

que em cada som vira um encaixe

e em cada palavra um verso novo em nossas vidas...

sorvo o café para manter

a sensação de estar desperto

fujo da morte como um garoto esperto

acostumado a pular os muros

e atravessar o deserto da solidão...

Mais uma xícara de café eu peço

para manter a inspiração..

.acendo um novo cigarro

na esperança que ele ilumine

e torne claro esse resto de rumo

que ainda tenho

esse murmurar de sons longíquos

essa sombra Dylan em que me abrigo...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

PONTE

Há uma ponte
que atravessa a fronte da natureza
que você pode passar
basta querer contemplar
você pode passar
e perceber uma nova flor
descobrir uma nova folhagem
encontrar uma nova imagem de si mesmo
camuflada ou reveladora de si mesmo.
Há uma ponte sobre as águas
e todas as fontes de desejos
você pode passar e conter os seus impulsos
ou pular e mergulhar todos os seus medos.
Há uma ponte em cada nossos pensamentos
algumas os une em novas idéias
outras desmaterializam-se
nos braços e abraços do vento!

sábado, 6 de setembro de 2008

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Quando um crayon retrata a poesia em imagens

Linda Huber
com poucos recursos
alcança a perfeição!
com apenas um crayonA Rosa é linda!
mesmo em preto e branco


A taça é transparente como

o líquido

que a preenche



como a luz dessa lâmpada

foi antes do acidente...


....como um dia foi

o sorriso de Marilyn

tão envolvente... ...a luz da ternura também pode
estar num semblante aparentemente triste...













... existe o sorriso fechado




, prá dentro também!...










...de contemplar




os olhos bondosos




de um cão...












... a alegria de ver além...





Os olhos...quantos mistérios




podem guardar?









A vontade de escapar da máscara, da face...











...e alcançar o infinito...





















...sentir-se nas alturas, nas nuvens dos sentimentos...



















...qual um gato,quando alcança o telhado e vê o céu mais de perto...









...como é bom os tempos de infância, o olhar puro sobre todas as coisas...

















...a alegria, com poucos recursos e muita imaginação...


























...essa precoce virtude de poder ser tudo na vida...








...com toda a dignidade...



















...de sorrir,mesmo com a boca assim...





















...dengosa e docemente atrevida...























...criança, eterna, enfim!



















segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Vago Caminho

Keidy Lee Jones Surrealismo
de Sara Mello

Vago caminho,


Como se em todo caminho houvesse direção.








A pétala que é vistosa


É a mesma que se esconde,








Salvos pelo tempo, enganados pela ocasião.


Entre um e dois há uma separação.








A diferença entre o remédio e o veneno é a dose,


Entre a razão e o coração é que ele se move


Entre o caso e o acaso:


É que um é desvio, o outro é destino;


A diferença entre ter e não ter é a questão.








Vários destinos como se em algum morasse um coração!

Salve