Luzes da Cidade

domingo, 6 de julho de 2008

Diário de Bordo

"Destino" de Manabu Mabe
Poematização do Diário de Bordo de Ryu Myzuno
- mentor da imigração japonesa -
O navio Kasuto Maru, de origem russa, foi afundado
em 9 de agôsto de 1945 .

O vapor zarpou


começa a viagem!


sobre o chão aquático


Céu limpo!


avista-se a ilha a estibordo.


Segue o vapor o seu trajeto


- fina chuva pelo amanhecer -


gotículas cintilantes


para arrefecer os ânimos


e ansiedades.


Céu nublado


-telhado de vapor cinzento-


avista-se a bombordo


um farol giratório


- fachos de luzes intercalados


no horizonte enigmático -


Outro dia


Céu límpido


o calor cada vez mais intenso


o suor tortura a pele,


a cabeça dói,


os cabelos envoltos de sol e sal


grudam nos dedos


como os peixes engalfinhados no anzol;


na fritura dos miolos


que trituram as idéias...


a cabeça dói


na aderência de remorsos e agonias.


O foguista esbraveja:


solta palavrões.


Na casa das máquinas


caldeiras espirram faíscas


- a calma já não é tão suave assim -


Inquietação geral!


Tentação para entrar nas cabines comprimidas


- a carência produz violência -


pobres mulheres


de semblantes friamente azulados


para abaixar as febres dos desejos


de popa à proa.


Outro dia


- o tempo não pára -


Intensificam-se os ventos e as chuvas.


Serviços de telegrafia postal adiados


-palavras ficam soltas no ar -


e os olhos entorpecidos pelo denso nevoeiro


revelam os primeiros sinais de saudade


e, tornam iguais,


marinheiros, passageiros e o timoneiro


- mastros envergam sob à fúria do vento -


Próxima parada no porto.


O navio encosta no cais


cansado do seu próprio peso.


Levanta-se a âncora!


A viagem prossegue:


derrama-se, novamente,


o líquido azul e salgado


da ânfora que jorra os segredos


das profundezas do mar.


O calor não está tão escaldante


- felizmente poucos doentes -


Segunda e Terça feira


céu límpido


bom para esclarecer as idéias


e ter a noção exata da viagem.


Quarta feira


metade do dia chuvoso,


no convés, uma briga:


o brilho prateado das lâminas no escuro


não teve, felizmente, consequências graves


- tudo apaziguado qual o bote salva-vida encostado ao lado


sem nenhuma eminência de ser utilizado -


Quinta feira!


Céu transparente até a segunda,


quando se torna nublado,


naufragado em sombras


- manchas fantasmas -


Avista-se, turvada,


uma nova ilha,


um novo sonho de terna realidade.


Outro farol!


o navio fica ancorado fora do porto.


Passam algumas horas...


entra no porto!


Primeiro desembarque.


Retrospectiva material,


física e sentimental dos tripulantes


- inéditos e ainda incrédulos imigrantes -


Passam mais algumas horas...


e o vapor zarpou


rumo ao alto mar.


A viagem prossegue...


o navio balançou...


muitos objetos chegaram a cair


dos seus lugares...


os tripulantes chacoalharam


nas mãos imprevisíveis do destino.


Porto definitivo,


terra firme!


hospedagem


- novos ares e perspectivas =


alguns marinheiros desertores


reentregues à embarcação...


a vida segue...cega...











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Salve