Luzes da Cidade

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Mochila

O mundo
um dia...
já foi variado!
poderia ir se ao fundo
dele encantado
e ainda assim parecer
ser raso
para os nossos mergulhos
intrépidos e sem prazos.
o mundo
já foi um leque
sedas de paisagens
sólido arco-íris
de terras areias
espumas
flocos de neve
pétalas e espinhos
tecidos
peles lisas e rústicas
carinhosas e selvagens
pedras brutas e buriladas
folhagens
flores rápidas e cáctus.
o mundo um dia...
já foi pitoresco!
deixava os meus olhos surpresos
sob o peso de impactantes imagens
e deixava os meus ouvidos atordoados
pelos sons desvendados pelas palavras.
Eu sonhava acordado
embebido de promessas
e descobertas
mas o tempo...o tempo...
desgasta os olhos
pedem lentes óculos
e voluntários acessos de cegueira
e vertem sólidas lágrimas.
A minha mochila
repousa presa
em prego fincado na parede
enquanto o meu ser cochila
e já não sonha tantas viagens.
O que ficou de mim acordado
é apenas a sombra clandestina
que procura ficar ao seu lado!
A mochila cochila
no prego pendurada
e para o meu assombro
já nem se lembra mais do amparo
dos meus ombros
das nossas jornadas alternadas
em paradas e disparos,
Dentro dessa mochila
couberam tantas aventuras
aromas se misturarram
roupas sujas e lavadas
asas de borboletas
que flagraram nossos beijos
lascas de madeira que gravamos nossos desejos
fotos de lugares emergentes
fotos remorsos de locais decadentes
postais sem mais endereços para viajar.
A mochila vive a agonia de ficar parada
como uma alegoria
cavando as memórias do seu subsolo
A alça já não parece ser mais segura
o ziper emperra
e os botões de pressão
já não tem mais convicção
dos seus beijos metálicos.
Guarda ainda um farolete
cujas pilhas já derreteram
lágrimas enferrujadas
um sabonete que perdeu o seu perfume
um pacote de caramelos
que perdeu a sua doçura e validade.
A mochila cochila
e não sabe se vai despertar!

Carlos Gutierrez

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